V u l g a t a b l o ! d


quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Mr. Hyde, Hulk, Tyler Durden e Niki

Quando foi criado por Stan Lee e Jack Kirby em meados de 1960, Hulk cumpriu eficientemente um duplo papel: era uma releitura pós-moderna de "Dr. Jekyll e Mr. Hyde" (clássico da literatura escrito por Robert Louis Stevenson) e também uma ferrenha e contracultural crítica ao militarismo wasp-republicano (propulsor paranóico da corrida armamentista e da guerra fria).

Da segunda metade dos anos 90 pra cá, a Marvel vem investindo pesado no cinema, relançando para consumo de massa seus principais personagens, embrulhando-os em gigantescas campanhas publicitárias e difundindo-os via blockbusters, procurando tanto 'fidelizar' seus antigos fãs (clientes) quanto arrebanhar novos.

Naturalmente, as preocupações da outrora 'Marvel contracultural' diluiram-se na atual 'Indústria Marvel de Entretenimento', o que implica que grande parte do que fazia seu conteúdo ser tão interessante e relevante ao longo das décadas de 60 e 70 (basta lembrar que os X-men foram bolados como uma metáfora anti-macartista e pró-minorias étnicas) tenha se perdido à cada barganha com o mainstream, na luta por mais espaço e visibilidade para seus produtos.

Felizmente, em meio a todo esse processo de massificação (que reduz valores contraculturais legítimos à mera retórica politicamente correta), ainda podemos identificar momentos poéticos, como o disfuncional e esquizóide "Hulk" dirigido por Ang Lee.

Um filme que nasceu pra fracassar gloriosamente nas bilheterias!

E sim, disfuncional e esquizóide, porque desde o início estava dividido entre dois métodos de produção antagônicos: de um lado a 'popcorn-ização' holiwoodiana (ou seja, a pressão pra se fazer mais um filme divertido e comercial) e do outro o cuidado com a marca autoral (afinal Ang Lee é de fato um diretor relevante e aceitou o desafio de assinar um produto que poderia manchar sua filmografia, então coroada pelo êxito de "O Tigre e o Dragão").

No entanto a escolha do diretor não poderia ter sido mais acertada! E o elenco também soube adequar-se com excelência aos componentes dramáticos do roteiro. Mas dois grandes equívocos foram cometidos:
1- um pesado investimento feito com efeitos especiais e computação gráfica (exibidos sobretudo em seqüências idiotas como a dos cães-hulk);
2- a falta do elemento suspense, para dar ritmo à narrativa.

Se tivessem usado CG moderadamente e concebido o personagem através de uma maquilagem adequada às intenções dramatúrgicas do diretor (apresentando a besta verde como um prolongamento macabro da personalidade do dr. Banner e, consequentemente, do ator Eric Bana), "Hulk" poderia ter dado certo: não como blockbuster, mas pelo menos como filme autoral.

Obviamente fracassou como ambos.

E está prestes a fracassar novamente, porque um relançamento está previsto para 13 de Junho de 2008, desta vez sob a batuta do francês Louis Leterrier (que dirigiu "Carga Explosiva" e "Cão de briga"). Inclusive as filmagens começaram AQUI no Brasil, pelo Rio de Janeiro, mais especificamente na favela Tavares Bastos, no Catete (zona sul do Rio).

O que mais chamou minha atenção nesta nova produção é a presença de Edward Norton encabeçando o elenco no papel-título.

Justamente ele que protagonizou esta que é, sem a menor dúvida, a melhor, a mais subversiva e relevante releitura cinematográfica do clássico de Stevenson: "FIGHT CLUB", de David Fincher.

Que chances Bruce Banner/Hulk pode ter diante de Jack/Tyler Durden?

Reformulo afirmando: re-carismatizar e reapresentar Hulk hoje, com tanta relevância quanto ele teve nos anos 60, só será possível quanto mais próximo ele estiver dos conflitos encarnados na paradigmática dupla esquizóide recriada por Fincher.

E não é preciso ir muito longe: a própria Niki/Jessika do seriado Heroes eclipsa o monstro verde, uma vez que é, ao mesmo tempo, a bela e a fera. Afinal, sinonimizar intempestividade e brutalidade com feiúra é o mesmo que persistir num clichê reacionário que iguala o Bem ao belo e o Mal à fealdade.

Contracultural e contemporâneo é mostrar que a bestialidade, a ferocidade e o terror podem se manifestar à partir de gente bonita e 'bem criada', como os personagens interpretados pelo galã Brad Pitt e a competente Ali Larter (e não vamos nos esquecer dos 'Guilhermes de Pádua' e das 'Suzanes Richtoffens').

Se aparentemente ainda não foi criado um lugar relevante pra ele no cinema e na TV, pelo menos em seu território de origem Hulk possui alguma dignidade, tanto na forma quanto no conteúdo. É o que podemos conferir na notável graphic novel "Gray Hulk", de Tim Sale e Jeph Loeb.

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